Citações e outras coisas mais...
Alberto Caeiro
A Manhã Raia A manhã raia. Não: a manhã não raia.
A manhã é uma coisa abstracta, está, não é uma coisa.
Começamos a ver o sol, a esta hora, aqui.
Se o sol matutino dando nas árvores é belo,
É tão belo se chamarmos à manhã «Começarmos a ver o sol»
Como o é se lhe chamarmos a manhã,
Por isso se não há vantagem em por nomes errados às coisas,
Devemos nunca lhes por nomes alguns.
Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"
Heterónimo de Fernando Pessoa
Ilha dos Amores
…" tentar e saber reconhecer, no meio do inferno, quem e o que não é o inferno, e fazê-lo viver, dar-lhe lugar."

O mito da Ilha dos Amores é contado por Luís de Camões, nos Cantos IX e X d'Os Lusíadas. Nestes cantos, é relatada a vontade da deusa Vénus em premiar os heróis lusitanos, com um merecido descanso e com prazeres divinos, numa ilha paradisíaca, no meio do oceano, a Ilha dos Amores. Nessa ilha maravilhosa, os marinheiros portugueses podiam encontrar todas as delícias da Natureza e as sedutoras Nereidas, divindades das águas, irmãs de Tétis, com quem se podiam alegrar em jogos amorosos. Durante um banquete oferecido aos Portugueses, a ninfa Sirena canta as profecias sobre a gente lusa que incluem as suas glórias futuras no Oriente.
Em seguida, Tétis, a principal das ninfas, conduz Vasco da Gama ao topo de um monte "alto e divino" e mostra-lhe, de acordo com a cosmografia geocêntrica de Ptolomeu, a "máquina do mundo", uma fábrica de cristal e ouro puro, à qual apenas os deuses tinham acesso, e que se tornou também num privilégio para os Portugueses. Tétis faz a descrição da máquina do mundo e prediz feitos valorosos, prémios e fama ao povo português. Depois do descanso merecido, os Portugueses partem da ilha e regressam a Lisboa.
O mito da Ilha dos Amores, narrado por Camões, é fruto da sua imaginação, quer povoada dos lugares maravilhosos onde as suas viagens o levaram, quer influenciada pelas míticas ilhas da literatura grega ou de outras lendas árabes e indianas. A moral pagã opõe-se aqui à moral cristã, da mesma forma que os novos ventos da mudança do renascimento de inspiração grega se opõem às limitações e ao pensamento medíocre da Inquisição. Neste episódio simbólico da Ilha do Amores, Camões tenta imortalizar os heróis lusitanos que tão grandes façanhas fizeram em nome de Portugal.
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Vergílio Ferreira
1916-1996
«O mais grave no nosso tempo não é não termos respostas para o que perguntamos - é não termos já mesmo perguntas.»

Nasceu em Melo, no concelho de Gouveia, em Janeiro de 1916, filho de António Augusto Ferreira e de Josefa Ferreira. A ausência dos pais, emigrados nos Estados Unidos, marcou toda a sua infância e juventude. Após uma peregrinação a Lourdes, e por sugestão dos familiares, frequenta o Seminário do Fundão durante seis anos. Daí sai para completar o Curso Liceal na cidade da Guarda. Ingressa em 1935 na Faculdade de Letras a Universidade de Coimbra, onde concluirá o Curso de Filologia Clássica em 1940. Dois anos depois, terminado o estágio no liceu D. João III, nesta mesma cidade, parte para Faro onde iniciará uma prolongada carreira como docente, que o levará a pontos tão distantes como Bragança, Évora ou Lisboa. Este homem reuniu em si diversas facetas, a de filósofo e a de escritor, a de ensaísta, a de romancista e a de professor. Contudo, foi na escrita que mais se destacou, sendo dos intelectuais contemporâneos mais representativos.
Toda a sua obra está impregnada de uma profunda preocupação ensaística. Vergílio foi também um existencialista por natureza. A sua produção literária reflecte uma séria preocupação com a vida e a cultura. Este escritor confessou a Invocação ao meu Corpo (1969) trazer em si “ a força monstruosa de interrogar”, mais forte que a força de uma pergunta. ”Porque a pergunta é uma interrogação segunda ou acidental e a resposta a espera para que a vida continue. Mas o que eu trago em mim é o anúncio do fim do mundo, ou mais longe, e decerto, o da sua recriação”. Este pensador tecia reflexões constantes acerca do sentido da vida, sobre o mistério da existência, acerca do nascimento e da morte, enfim, acerca dos problemas da condição humana. Ainda nos restou o imenso homem, que ficou dentro da obra, pois, como o próprio declarou, o autor nunca pode ser dissociado da sua obra porque nela vive, respira e dela fica impregnado. Vergílio entregava-se à escrita de corpo e alma, tinha essa obsessão; após a qual se sentia vazio, mas depois de um livro voltava a renovar-se para dar corpo a outro. “Escrever, escrever, escrever. Toma-me um desvairamento como o de ébrio, que tem mais sede com o beber para o beber, ou do impossível erotismo que vai até ao limite de sangrar. Escrever. Sentir-me devorado por essa bulimia, a avidez sôfrega que se alimenta do impossível”.(Pensar, 1992). A obra de Vergílio Ferreira recebeu influências do existencialismo de Satre, de Marco Aurélio, Santo Agostinho, Pascal, Dostoievski, Jaspers, Kant e Heidegger.
Os clássicos gregos e latinos como Ésquilo, Sófocles e Lucrécio, também assumiram uma importância vital nos pensamentos deste escritor. No livro Mito e Obsessão na Obra de Vergílio Ferreira, Eduardo Lourenço afirma que “faz parte que se considere Vergílio Ferreira numa perspectiva ideológica, como autor de ruptura e tentativa de superação e reformulação do ideário neo-realista; numa perspectiva metafísica, como romancista do existencial no sentido que ao termo foi dado pela temática chamada existencialista; e, finalmente, numa perspectiva simbólica, como romancista de uma espécie de niilismo criador ou, talvez melhor, do humanismo trágico ou tragédia humanista”.
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A história inspiradora de Sophie Nugent
Uma menina inglesa com apenas seis anos, realizou o seu sonho de ser bailarina, após o diagnóstico dos médicos indicar que a menina nunca poderia andar devido a uma paralisia cerebral que tinha sofrido com poucos meses.
Durante os primeiros cinco anos de vida, Sophie movimentava-se através de um andarilho, consequência dos efeitos de uma paralisia cerebral que originou um distúrbio nos músculos causando contração e relaxamento de músculos dos pés (espasticidade muscular). A doença foi-lhe diagnosticada aos 18 meses e, nesta altura, os médicos disseram aos pais que jamais a criança podia andar sozinha. Os seus movimentos seriam acompanhados por um andarilho ou a menina teria que se deslocar de cadeira de rodas. Mesmo com este diagnóstico, os pais de Sophie nunca baixaram os braços e mantiveram a esperança de ver a filha cumprir o seu sonho: dançar.
Tiveram, então, conhecimento de uma cirurgia pioneira no hospital infantil de St Louis, nos EUA. Realizaram um site onde angariaram fundos para o procedimento e tiveram o apoio da comunidade onde vivem. Com o empréstimo bancário e com os fundos, conseguiram que Sophie realizasse a operação no valor de 40 mil libras. O médico T. S. Park, que operou Sophie, é o único do mundo a realizar esta cirurgia, que ainda não está disponível na rede pública de saúde. Segundo o médico, cerca de duas mil crianças já realizaram esta cirurgia que consiste em cortar os nervos para dar de novo a mobilidade correta à área afetada pela espasticidade muscular. Quatro dias depois da cirurgia à coluna vertebral, Sophie deu os primeiros passos.
Atualmente, já ganhou uma bolsa de estudos para fazer dança jazz. "Sophie está muito bem, agora pode correr como as outras crianças, não tão rápido, mas está a ficar mais forte de dia para dia. Está a frequentar as aulas de dança.
Estamos muito orgulhosos. Sem a sua determinação não teria sido possível", revela Debra Nugent, a mãe da menina, no site criado para apoiar Sophie.
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Benjamin Franklin
1706-1790
Foi um homem genial, lembrado como uma das grandes figuras do século XVIII.
Franklin nasceu em Boston em 1706 e era o décimo quinto dos dezassete filhos de um pobre fabricante de velas. Apesar de ter frequentado a escola durante pouco mais de um ano, aprendeu sozinho Ciências, Filosofia e Línguas revelando, desde cedo, capacidades prodigiosas. A sua vida pautou-se por inúmeros feitos em diversas áreas. Foi cientista e inventor, filósofo e estadista, editor e escritor, filantropo e diplomata.
Porém, foi como cientista e estadista que o seu génio se salientou. Franklin era uma pessoa simples na sua maneira de ser e possuía uma personalidade e sentido de humor aliciantes, razão por que se impôs ao afecto e respeito de todos que o conheciam.
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Tenho um sonho...
Martin Luther King, pastor norte-americano, Prêmio Nobel, um dos principais líderes do movimento americano pelos direitos civis e defensor da resistência não violenta contra a opressão racial.
Nasceu em Atlanta, Geórgia, no dia 15 de janeiro de 1929. Foi ordenado pastor batista aos 18 anos de idade. Depois de se formar no Seminário Teológico de Crozer, fez pós-graduação na Universidade de Boston.
Foi através dos estudos em Crozer e em Boston que Martin Luther King conheceu os trabalhos do líder pacifista indiano Mahatma Gandhi, cujas idéias se tornaram o núcleo da sua própria filosofia sobre o protesto não violento.
Martin Luther King foi assassinado em abril de 1968 em Memphis, Tenessee, por um branco que havia escapado da prisão.
“O verdadeiro líder não é o que busca o consenso, mas sim aquele que o molda.”
Martin Luther King
“Um homem que não vai morrer por alguma coisa não está apto para viver.”
Martin Luther King
“Todo progresso é precário, e a solução de um problema leva-nos cara a cara com um outro problema.”
Martin Luther King
“Quase sempre, a minoria criativa dedicada fez o mundo melhor.”
Martin Luther King
“No centro da filosofia de não-violência reside o princípio do amor.”
Martin Luther King
“Ódio não pode expulsar ódio, só o amor pode fazê-lo.”
Martin Luther King
“O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons.”
Martin Luther King
“Eu tenho um sonho que as minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver numa nação onde não serão julgados pela cor de sua pele, mas pelo conteúdo de seu caráter.”
Martin Luther King
“Quero ser irmão do homem branco, e não seu cunhado.”
Martin Luther King
“Eu decidi ficar com o amor. Ódio é um fardo muito grande para suportar.”
Martin Luther King
“Devemos aprender a conviver juntos como irmãos ou pereceremos juntos como tolos.”
Martin Luther King
“O amor é a única força capaz de transformar um inimigo em amigo.”
Martin Luther King
“O tempo é sempre certo para fazer o que é certo.”
Martin Luther King
“Nós não iremos lembrar das palavras de nossos inimigos, mas sim do silêncio dos nossos amigos.”
Martin Luther King
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Cântico Negro
José Régio
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou -
Sei que não vou por aí!
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Ser ou não ser...
«Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.
(...)»
A Tragédia de Hamlet, W. Shakespeare
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Agostinho da Silva
1906-1996
«A única salvação do que é diferente é ser diferente até o fim, com todo o valor, todo o vigor e toda a rija impassibilidade; tomar as atitudes que ninguém toma e usar os meios de que ninguém usa; não ceder a pressões, nem aos afagos, nem às ternuras, nem aos rancores; ser ele; não quebrar as leis eternas, as não-escritas, ante a lei passageira ou os caprichos do momento; no fim de todas as batalhas — batalhas para os outros, não para ele, que as percebe — há-de provocar o respeito e dominar as lembranças; teve a coragem de ser cão entre as ovelhas; nunca baliu; e elas um dia hão-de reconhecer que foi ele o mais forte e as soube em qualquer tempo defender dos ataques dos lobos.»
Agostinho da Silva, in 'Diário de Alcestes'
Agostinho da Silva nasceu no Porto em 1906 e cresceu em Barca d'Alva. Na faculdade de Letras do Porto conclui a licenciatura em Filologia Clássica com 20 valores e o doutoramento com o «maior louvor». Uma bolsa de estudo leva-o até à Sorbonne e ao Collège de France.
Agostinho torna-se efectivo do liceu José Estêvão em Aveiro, em 1933. Entusiasta, empenha-se muito para além das funções que lhe eram exigidas. «Tinha criado, por exemplo, uma caixa de apoio aos estudantes» mais pobres e outras acções «incómodas» aos olhos do Estado Novo, explica Helena Briosa e Mota, que está a concluir uma tese de doutoramento sobre Agostinho da Silva e o processo PIDE.
Os textos sobre o desenvolvimento cultural e educativo do país, que divulga nas revistas «Labor» e «Seara Nova», também inquietavam Salazar.
Apenas dois anos depois de entrar para o ensino público, o professor é exonerado, por se recusar a assinar a Lei Cabral. Um documento onde tinha que jurar não pertencer a nenhuma sociedade secreta. Para além de Agostinho, só houve mais duas pessoas a dizer não: Fernando Pessoa e Norton de Matos.
Desempregado, Agostinho da Silva começa a dar aulas no ensino privado e explicações particulares. Mário Soares, mestre Lagoa Henriques, Manuel Vinhas, os irmãos Lima de Faria foram apenas alguns dos seus pupilos.
«Dava aulas de Filosofia, Cultura Portuguesa, Direito. Era uma homem perfeitamente pluridimensional», salienta Helena Briosa. Para além disso, falava 15 línguas e dois dialectos africanos.
O professor inicia também uma série de palestras públicas, de Norte a Sul do país. E começa a publicação dos seus famosos cadernos de iniciação cultural, sobre áreas tão diversas como religião ou arquitectura. No total 120 cadernos foram escritos e editados por Agostinho da Silva, entre 1937 e 1944.
Foram os cadernos «O Cristianismo», editado em 1943, e «Doutrina Cristã», 1944, que abriram um fogo-cruzado entre Agostinho, Igreja e Estado Novo.
«Deus não exige de nós nenhum culto (...). Todos podemos ser sacerdotes, porque todos temos capacidades de Inteligência e de Amor (...) Estão ainda longe de Deus, de uma visão ampla de Deus os que fazem consistir o seu culto em palavras e ritos (...)», lê-se numa das passagens do texto.
Mesmo exonerado, Agostinho da Silva incomodava. Depois de muitos duelos travados na imprensa com personalidades como o padre Raul Machado, da Universidade de Lisboa, ou o cardeal patriarca de Lisboa, Agostinho acaba preso na cadeia do Aljube. A sua biblioteca é confiscada e inventariada.
Cansado de Portugal, Agostinho parte para o Brasil, onde deu continuidade à sua «missão» de divulgador cultural.
No outro lado do Atlântico, participou na fundação de universidades e centros de estudo, sobretudo fora dos centros urbanos: a Universidade Federal de Paraíba, a Federal de Santa Catarina, a Universidade de Brasília, o Centro de Estudos Africanos e Orientais da Universidade Federal da Baía.
Helena Briosa conta que Agostinho, com o seu optimismo quase desconcertante, repete muitas vezes «que o Estado Novo lhe fez um favor ao empurrá-lo para fora do país», dando-lhe oportunidade de divulgar a língua e cultura portuguesa em terras latino-americanas.
Numa das cartas, que a investigadora leu à TSF Online, Agostinho faz referência a Fernando Pessoa, afirmando que se tivesse ficado em Portugal «seria provavelmente um triste e cabisbaixo cidadão sentado à mesa de qualquer café (...) pendurado no seu cigarro».
Um abraço entre o povo português, africano e brasileiro, foi um sonho que despertou em Agostinho desde novo. É a ideia de uma Comunidade luso-afro-brasileira que partilha no IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-brasileiros, em 1959, na universidade da Baía.
No colóquio participa Marcelo Caetano (ainda como reitor e ex-ministro). Contrariando todas as ideias em que assentava a intervenção o homem que viria a suceder a Salazar, Agostinho lança para a mesa aquilo que considera os verdadeiros problemas das colónias africanas.
«O futuro das ideias e das tradições em geral do mundo africano, a dignidade do indivíduo e a liberdade do homem, o impacto da civilização de carácter familiar sobre uma mentalidade fortemente tribal. E outro problema! Sabermos o que pensarão de nós no futuro milhões de africanos».
Como representante do Brasil, cuja cidadania adquiriu em 1958, esteve no Japão, em Macau e em Timor Leste. Viagens, por onde fundou por exemplo, o Instituto de Língua e Cultura Portuguesa, em Tóquio, o Centro de estudos Ruy Cinatti e o Centro de Estudos Brasileiros, ambos Dili.
A chegada da ditadura ao Brasil, traz Agostinho de regresso a Portugal, em 1969.
Por cá, passa pela direcção do Centro de Estudos Latino-americanos da Universidade Técnica de Lisboa, e foi consultor do Instituto Cultura e Língua Portuguesa (ICALP). Inicia também um grande contacto com a Galiza e com a Catalunha.
Nos últimos anos de sua vida, Agostinho da Silva tornou-se uma autêntica «estrela» nacional graças à sua participação no programa «Conversas Vadias» da RTP1.
Este avozinho com espírito de miúdo conquistou milhões de portugueses que se colavam ao écran para o ouvir. Um ano antes de morrer, com 87 anos e oito filhos adultos, admite, em entrevista ao jornalista da RTP Luís Machado, que «é muito raro» ler jornais. A não ser o «Público», salienta, «mas é sobretudo por causa do Calvin».
Agostinho da Silva, em entrevista para a TSF a 03 Abr 04
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Fernando Pessoa
1888-1935
Frequentou, durante um ano, uma escola comercial e a Durban High School e concluiu, ainda, o «Intermediate Examination in Arts», na Universidade do Cabo (onde obteve o «Queen Victoria Memorial Prize», pelo melhor ensaio de estilo inglês), com que terminou os seus estudos na África do Sul. No tempo em que viveu neste país, passou um ano de férias (entre 1901 e 1902), em Portugal, tendo residido em Lisboa e viajado para Tavira, para contactar com a família paterna, e para a Ilha Terceira, onde vivia a família materna.
Já nesse tempo redigiu, sozinho, vários jornais, assinados com diferentes nomes. De regresso definitivo a Lisboa, em 1905, frequentou, por um período breve (1906-1907), o Curso Superior de Letras. Após uma tentativa falhada de montar uma tipografia e editora, «Empresa Íbis — Tipográfica e Editora», dedicou-se, a partir de 1908, e a tempo parcial, à tradução de correspondência estrangeira de várias casas comerciais, sendo o restante tempo dedicado à escrita e ao estudo de filosofia (grega e alemã), ciências humanas e políticas, teosofia e literatura moderna, que assim acrescentava à sua formação cultural anglo-saxónica, determinante na sua personalidade.
Em 1920, ano em que a mãe, viúva, regressou a Portugal com os irmãos e em que Fernando Pessoa foi viver de novo com a família, iniciou uma relação sentimental com Ophélia Queiroz (interrompida nesse mesmo ano e retomada, para rápida e definitivamente terminar, em 1929) testemunhada pelas Cartas de Amor de Pessoa, organizadas e anotadas por David Mourão-Ferreira, e editadas em 1978. Em 1925, ocorreria a morte da mãe.
Fernando Pessoa viria a morrer uma década depois, a 30 de Novembro de 1935 no Hospital de S. Luís dos Franceses, onde foi internado com uma cólica hepática, causada provavelmente pelo consumo excessivo de álcool.
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Sophia de Mello Breyner
1919-2004

Poetisa e contista portuguesa, nasceu no Porto, no seio de uma família aristocrática, e aí viveu até aos dez anos, altura em que se mudou para Lisboa. De origem dinamarquesa por parte do pai, a sua educação decorreu num ambiente católico e culturalmente privilegiado que influenciou a sua personalidade. Frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em consonância com o seu fascínio pelo mundo grego (que a levou igualmente a viajar pela Grécia e por toda a região mediterrânica), não tendo todavia chegado a concluí-lo. Teve uma intervenção política empenhada, opondo-se ao regime salazarista (foi co-fundadora da Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos) e também, após o 25 de Abril, como deputada. Presidiu ao Centro Nacional de Cultura e à Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores.
O ambiente da sua infância reflecte-se em imagens e ambientes presentes na sua obra, sobretudo nos livros para crianças. Os verões passados na praia da Granja e os jardins da casa da família ressurgem em evocações do mar ou de espaços de paz e amplitude. A civilização grega é igualmente uma presença recorrente nos versos de Sophia, através da sua crença profunda na união entre os deuses e a natureza, tal como outra dimensão da religiosidade, provinda da tradição bíblica e cristã.
A sua actividade literária (e política) pautou-se sempre pelas ideias de justiça, liberdade e integridade moral. A depuração, o equilíbrio e a limpidez da linguagem poética, a presença constante da Natureza, a atenção permanente aos problemas e à tragicidade da vida humana são reflexo de uma formação clássica, com leituras, por exemplo, de Homero, durante a juventude. Colaborou nas revistas Cadernos de Poesia (1940), Távola Redonda (1950) e Árvore (1951) e conviveu com nomes da literatura como Miguel Torga, Ruy Cinatti e Jorge de Sena.
Na lírica, estreou-se com Poesia (1944), a que se seguiram Dia do Mar (1947), Coral (1950), No Tempo Dividido (1954), Mar Novo (1958), O Cristo Cigano (1961), Livro Sexto (1962, Grande Prémio de Poesia da Sociedade Portuguesa de Escritores), Geografia (1967), Dual (1972), O Nome das Coisas (1977, Prémio Teixeira de Pascoaes), Navegações (1977-82) e Ilhas (1989).
Este último voltou a ser publicado em 1996, numa edição de poemas escolhidos acompanhada de fotografias de Daniel Blaufuks. Em 1968, foi publicada uma Antologia e, entre 1990 e 1992, surgiram três volumes da sua Obra Poética. Seguiram-se os títulos Musa (1994) e O Búzio de Cós (1997). Colaborou ainda com Júlio Resende na organização de um livro para a infância e juventude, intitulado Primeiro Livro de Poesia (1993).
Diário de Trás-os-Montes
Por Fernando Gouveia
Confrontado diariamente com a exigência geral de rigor que vigora nos países mais avançados da velha Europa, dou comigo a protestar frequentemente contra o que representa o nosso tradicional desleixo e a tecer críticas que me doem no mais íntimo do meu ser português. Em momentos mais raros, é-me, porém, muito grato referir o que são os bons exemplos dos melhores dentre nós e que, infelizmente, às vezes só reconhecemos tarde demais.
Quero hoje referir-me a dois desses exemplos, ambos do meu concelho, que me alimentam a certeza de que nem tudo é mau.
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Livro "COMO JACK WELCH SE TORNOU JACK WELCH: EXPERIENCIAS EXTRAORDINARIAS E HISTORIAS INSPIRADORAS"
Sinopse
Após trabalhar com alguns dos melhores líderes empresariais dos Estados Unidos, os autores começaram a perguntar-se: o que fez esses homens e mulheres brilhantes? Surpreendentemente, não se trata de formação educacional, origem social ou inteligência inata. Assim como Jack Welch, que começou a vida como alguém que veio de baixo, filho de um maquinista, mas que seguiu em frente, tornando-se um dos mais celebrados e vitoriosos executivos dos nossos tempos, muitos de nós tiveram de construir um caminho em meio a um início com muitas adversidades. Claro que existe uma infinidade de pessoas ainda mais astutas e talentosas que estão paradas no caminho para o sucesso. Algo mais está a acontecer. O que podemos aprender com essas pessoas para melhorar as nossas possibilidades de alcançar realizações?
Stephen Baum recupera não apenas os segredos de negócios de reconhecidos CEOs, mas também as suas histórias. Ele mergulha nas vidas dos homens e mulheres que estão por trás da face profissional, aprendendo sobre as experiências de vida formadoras que essas pessoas têm em comum e que acabaram por tornar-se as bases do verdadeiro sucesso, tanto na carreira quanto na vida. Esses momentos desenvolvem um núcleo interno de resistência e confiança que consiste na real chave para a liderança em qualquer ramo de actividade ou novo empenho? foi o que fez de Jack Welch, JACK WELCH.
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«Aquilo a que chamamos "mente" é uma colecção de processos biológicos. E, dado que estes processos são físicos, a mente é necessariamente um processo físico. Mas é preciso pensar que a física desses processos biológicos não é necessariamente a física corrente. Ter uma mente em funcionamento não é o mesmo do que ter um pedaço de mármore. Um dos grandes problemas que as pessoas têm é que quando pensam em matéria, quando pensam em qualquer coisa de físico, a imagem a que recorrem é a do cimento, da parede, da pedra, do pedaço de metal. E é evidente que o processo mental — é um processo, note-se, um constante desenrolar de acontecimentos, e não uma coisa — não pode ser concebido como esse tipo de matéria.
Uma das coisas mais curiosas que está a acontecer é uma modificação da forma como os físicos concebem a matéria. A matéria não é apenas cimento e pedra, é também energia e fluxos. Assim, o nível de fenómeno biológico em que se desenrola a mente é de um nível físico que ainda está por definir completamente. O que lhe posso dizer é que tenho a convicção que há uma matéria do pensar, da mente consciente, matéria essa que é biológica e altamente complexa, que está ligada ao funcionamento de redes nervosas — e que permite a própria perspectiva da primeira pessoa — e que nada tem a ver com a nossa concepção da matéria e dos objectos de pedra e cal e aço que temos à nossa volta.»
Entrevista a António Damásio "A Consciência do Corpo"_crítica - revista de filosofia
Texto publicado no suplemento Livros do jornal O Independente (Junho de 2000)
O sentimento de si
DAMÁSIO, António
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Jobs é simplesmente uma lenda viva. Revolucionou o mundo da tecnologia; foi co-fundador da Apple Inc e do estúdio de animação Pixar. A sua marca registrada é a inovação. Foi através dela que Jobs e a sua equipa transformaram produtos da Apple, como o Macintosh, iMac, iBook, iPod, Mac OS X, MacBook e iPhone, num estrondoso sucesso.
Abaixo, alguns excertos interessantes do discurso:
“Muito do que descobri naquela época, guiado pela minha curiosidade e intuição, mostrou-se mais tarde ser de uma importância sem preço.”
“Se eu nunca tivesse deixado aquele curso na faculdade, o Mac nunca teria tido as fontes múltiplas ou proporcionalmente espaçadas. E considerando que o Windows simplesmente copiou o Mac, é bem provável que nenhum computador as tivesse. Se eu nunca tivesse largado o curso, nunca teria frequentado as aulas de caligrafia e os computadores poderiam não ter a maravilhosa caligrafia que eles têm.”
“Não conseguimos conectar os factos olhando para frente. Só os conectamos quando olhamos para trás. Então, tem de acreditar que, de alguma forma, eles vão conectar-se no futuro. Temos de acreditar em alguma coisa - na garra, no destino, na vida, no karma ou no que quer que seja. Essa maneira de encarar a vida nunca me decepcionou e tem feito toda a diferença para mim.”
“Às vezes, a vida bate com um tijolo na sua cabeça. Não perca a fé. Estou convencido de que a única coisa que me permitiu seguir adiante foi o meu amor pelo que fazia. Tem de descobrir o que ama. Isto é verdadeiro tanto para o seu trabalho quanto para com as pessoas que ama.”
“Não há razão para não seguir o seu coração. Lembrar que vai morrer é a melhor maneira que conheço para evitar a armadilha de pensar que tem algo a perder.”
vídeo do discurso - parte I
vídeo do discurso - parte II
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"A história do pensamento ocidental transborda a tal ponto de elogios às virtudes da racionalidade, que deixámos de ponderar nos seus limites.
O córtex pré-frontal é sem dúvida fácil de ludibriar. Bastam uns dígitos a mais ou uma colher de chocolates um pouco maior para que esta área racional do cérebro comece a tomar decisões irracionais."
Como Decidimos, Jonah Lehrer
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Nas últimas décadas, a ciência deu passos de gigante. Os cientistas da segunda metade do século XX e de inícios do século XXI alcançaram, em muito pouco tempo, níveis inimagináveis de conhecimento.
Como é que o Universo surgiu? Podemos confiar nas percepções do nosso cérebro? Como definir a beleza? É possível quebrar as barreiras do espaço e do tempo? O que é que nos diferencia realmente dos outros animais? Como é que os vírus actuam? O que é que explica a agressividade? Quais as leis que comandam a vida? Até onde chegará o progresso tecnológico?
Frente a Frente com a Vida, a Mente e o Universo, Eduardo Punset, Ed. Dom Quixote
"...Utilize os seus sentidos plenamente. Esteja onde você está. Olhe em volta. Apenas olhe, não interprete. Veja as luzes, as formas, as cores, as texturas. Esteja consciente da presença silenciosa de cada objecto. Esteja consciente do espaço que permite cada coisa existir... mova-se profundamente para dentro do Agora."
O Poder do Agora, Eckhart Tolle
O livro pode ser adquirido bertrand
Depoimento em video
"Como é possível que um clube de ténis sem um cêntimo e apenas com campo aberto, originar mais jogadoras do top-vinte do que todos os Estados Unidos?
"O Código do Talento", de Daniel Boyle
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Um texto do pianista António Victorino D’Almeida onde aborda o tema da expressão artística espontânea.
“Se me pedissem que fizesse uma definição da improvisação, eu diria que se trata da música no seu estado selvagem.
Com efeito, penso que a origem da maior parte do repertório musical partiu, de uma forma ou de outra, de uma improvisação, a qual corresponde à nascente das ideias, na sua versão mais pura.
A partir do momento em que se toma nota dessas ideias, arquiva-se e selecciona-se um material que será posteriormente desenvolvido e até, se possível, aperfeiçoado.
Mas há que ter consciência do risco que essa segunda parte do trabalho criativo representa, podendo retirar espontaneidade ou mesmo alguma verdade aos sons que se improvisaram livremente.
Com efeito, a metodologia a que toda a escrita musical terá inevitavelmente que obedecer, pode cercear ou mesmo estancar o veio generoso das ideias que nasce de uma improvisação.
E há casos em que o compositor talvez deva optar por seguir em frente, deixando que as ideias musicais se espraiem nesse estado selvagem, mesmo sabendo que tudo aquilo que está a acontecer irá perder-se.
Na realidade, talvez nem se perca: o que veio do subconsciente regressa naturalmente à sua origem, tal como a água das chuvas se entranha na terra para depois se evaporar e regressar às nuvens.”
D’ALMEIDA, António Victorino – Improvisações. Porto: Casa da Música, 2008









